Artigo de Saúde Pública®
Nº 86 / Novembro de 2009
12 SIDA: de patologia mortal a potencialmente fatal- Prof. Meliço-Silvestre
- Professor Doutor Francisco Antunes
- Dr. Eugénio Teófilo
- Dr. Rui Marques
- Prof. Rui Sarmento e Castro
- Dr. Luís Mendão
Passaram-se anos sobre uma doença de comportamentos, que foi associada a grupos de risco, era mortal e hoje, desde que com uma atitude responsável, deixou de ser uma patologia mortal para se tornar potencialmente fatal. Com acompanhamento médico e o respeito pela terapêutica, um doente infectado com VIH pode ter agora uma esperança de vida igual à da população em geral.
A década de oitenta confrontou o Homem com uma patologia «estranha», fatal, que afectava predominantemente os homossexuais, os hemofílicos, os haitianos. A comunidade científica entra em alerta máximo, com a mortalidade elevadíssima que se registava.
«Lembro-me bem desse tempo, em que o profissional de saúde questionava uma possível causa que também o podia provavelmente atingir. No início dos anos oitenta, Montaigner e Barré-Sinoussi descobrem, no Instituto Pasteur, em Paris, o agente causal e, em Portugal, Laura Ayres assume o comando de uma Comissão que lançou com êxito as primeiras estratégias de luta contra a síndroma de imunodeficiência adquirida, SIDA», recorda o Prof. Meliço-Silvestre, director do Serviço de Doenças Infecto-contagiosas dos Hospitais da Universidade de Coimbra e ex-coordenador da Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA.
Desencadearam-se medidas preventivas, criaram-se associações à volta deste tema e as políticas foram sendo assumidas e implementadas, arrastando o País para uma estratégia envolvente, com resultados positivos, «que poderiam ter sido mais eficazes se não fossem as descontinuidades da “política”, como tão bem posso testemunhar pela interrupção abrupta e inconsequente do mandato na Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA».
No resto do Mundo, os desafios são enormes, nomeadamente nos países mais pobres. Do outro lado há a destacar a vitória da contenção da transmissão mãe/filho. Outra grande vitória é a assumpção de que, com o cumprimento terapêutico, podemos encarar esta doença como crónica e não necessariamente mortal.
Mas «a perspectiva de já ser possível o controlo da doença, com qualidade de vida, exige um esforço cada vez maior de sensibilização da sociedade para uma prevenção eficaz. O aprofundamento da relação médico/doente levará a uma melhor adesão terapêutica que, por si só, é um marcante factor de prevenção, pela carga vírica tantas vezes indetectável conseguida pela eficácia dos esquemas terapêuticos. Esperemos que estas opções ajudem, de uma vez por todas, a afastar o estigma tão absurdo lançado sobre estes doentes».
Essa evolução terapêutica, além de eficaz, tem igualmente sido sustentada pela preocupação pela comodidade e segurança para o doente.
«Estamos muito longe das terapêuticas com dezenas de fármacos, limitações pontuais e interacções medicamentosas de gravidade. É fascinante podermos controlar hoje os nossos doentes com um único comprimido diário, apenas um quarto de século após o dealbar desta patologia», rejubila o médico.
A evolução é tal que nos dias que correm não se questiona a eficácia dos medicamentos, mas aqueles que apresentam menos efeitos adversos ou que são mais fáceis de tomar, factor decisivo para a adesão terapêutica. «É nestas interfaces adesão/efeitos terapêuticos e interacções que vão residir os passos do futuro, dignificando o doente.»
SIDA: Saúde Pública ou questão individual?
A dimensão do tratamento da infecção VIH/SIDA envolve aspectos que a generalidade dos infectados desconhece, dado que, para além de envolver uma disciplina de adesão rigorosa às consultas, ultrapassa a simples toma de alguns comprimidos.
Segundo o Professor Doutor Francisco Antunes, director do Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e membro da Direcção da Sociedade Portuguesa de Doenças Infecciosas, «apenas após o primeiro contacto com a equipa de saúde do centro onde será seguido é que o doente passa a conhecer os verdadeiros contornos da doença, o seu prognóstico e o tratamento proposto, que envolve um programa educacional para a saúde, relativamente aos comportamentos sexuais de risco, aos hábitos alimentares e de consumo de tabaco, álcool e drogas, à necessidade do exercício físico e, finalmente, à adesão rigorosa à terapêutica contra VIH/SIDA, de forma a garantir que a expectativa de vida seja, aproximadamente, idêntica à da média da população do país».
O papel da terapêutica anti-retrovírica (contra o vírus da SIDA) na prevenção da transmissão da infecção por VIH/SIDA e o seu impacto em Saúde Pública só muito recentemente têm sido discutidos a nível mundial.
«A utilização, na prática clínica, da combinação de três ou mais anti-retrovíricos, num seropositivo com boa adesão à terapêutica e com carga vírica indetectável sustentada, anula, praticamente, o risco de transmissão do vírus por via sexual (do mesmo modo acontece, por exemplo, quando se prescreve terapêutica anti-retrovírica a uma mulher grávida, na prevenção da transmissão vertical, mãe/filho). Mas não é infalível, daí que se recomende aos seropositivos que, para além de uma boa adesão à terapêutica, utilizem preservativos nas relações sexuais, apesar, mesmo, da carga vírica indetectável, dado que existem outras doenças sexualmente transmissíveis, para além da SIDA», esclarece o especialista.
No entanto, há a noção de que os doentes chegam muito tardiamente às consultas. «Alguns destes doentes têm o seu estado imunitário profundamente comprometido e destes alguns apresentam-se com SIDA ou em iminência de desenvolverem SIDA, em risco de morrerem», afirma, prosseguindo:
«A maior parte dos infectados pelo VIH/SIDA, apesar dos comportamentos de risco que acabam por assumir, consideram que “o mal só bate à porta dos outros” e vão protelando a decisão de reconhecerem a seropositividade. O diagnóstico precoce pode ser a diferença entre a vida e a morte. Está na altura de promover a sensibilização da população, seja de que idade for, para o diagnóstico precoce da infecção pelo VIH/SIDA, dado tratar-se de uma doença com bom prognóstico, desde que a terapêutica seja instituída atempadamente», alerta Francisco Antunes.
Rastreios e diagnóstico precoce
Um dos conceitos muito enraizados na população e que convém abater é a ideia de grupo de risco, em vez do comportamento de risco.
«Muitos homens que não se identificam como homossexuais têm contactos sexuais com outros homens não usando preservativo e portanto tiveram um comportamento de risco. Nas mulheres a questão é ainda mais complicada, pois podem ser os parceiros sexuais delas que têm o comportamento de risco, elas de facto nunca tiveram o tradicional comportamento de risco, mas podem estar em risco. Penso que todas as pessoas sexualmente activas deveriam fazer regularmente o teste e mesmo as que hoje não têm actividade sexual deveriam fazer uma vez o teste para se assegurarem da sua situação», alerta o Dr. Eugénio Teófilo, do Serviço de Medicina Interna do Hospital dos Capuchos.
Esta atitude facilita na compreensão da pouca adesão aos rastreios e, por inerência, a um diagnóstico precoce. Mas há onde fazê-lo de forma segura e anónima.
«Nos CAD o teste pode ser efectuado de forma segura e anónima. O primeiro medo a ultrapassar é vencer a barreira de enfrentar o sistema. Quando se vai fazer o teste vão ficar registados dados da pessoa que muitos não confiam que serão confidenciais. Por outro lado, mesmo que não seja verdade, quando se vai fazer o teste para o HIV-1 acredita-se que do outro lado estão a pensar: “Portaste-te mal e agora vens aqui”», defende o médico, lembrando ainda:
«Os testes actuais são muito seguros e sobretudo os de quarta geração são muito bons, pois diminuem o período de incerteza de um teste negativo após o contacto de risco recente para cerca de 15 dias.»
De entre as várias atitudes essenciais no universo SIDA, pretende-se que as pessoas infectadas possam ser diagnosticadas e orientadas para centros onde terão um acompanhamento médico antes de apresentarem um défice imunitário significativo.
«A evolução a longo prazo da infecção por VIH é condicionada fortemente pela instituição do tratamento anti-retrovírico ainda numa fase de relativa preservação imunológica. Daí a importância de serem precocemente identificadas as pessoas infectadas, de modo a poderem beneficiar com o tratamento instituído numa fase não excessivamente avançada da doença», defende o Dr. Rui Marques, responsável pela Clínica de Ambulatório VIH do Hospital de São João, no Porto, defendendo ainda que com essa atitude «o tratamento anti-retrovírico é geralmente melhor tolerado».
Mas, atendendo à discriminação ainda existente à volta da doença, o pedido de teste ainda tem um carácter estigmatizante, ferindo de morte a eficácia do diagnóstico precoce.
Número de heterossexuais infectados por VIH está a aumentar
O Prof. Rui Sarmento e Castro, director clínico do Hospital de Joaquim Urbano, localizado no Porto, alerta a população para a prevenção, dado que se trata de uma das principais medidas de combate ao flagelo.
De acordo com o infecciologista, «é necessário actuar de uma forma mais precisa, visto que têm de ser tomadas medidas concretas de prevenção».
De forma geral, «por exemplo, as pessoas realizam diversas análises ao colesterol e aos triglicerídeos com alguma regularidade». Neste sentido, «julgo que será importante alargar esta forma de pensar também para a área da Infecciologia». Basta, para isso, que «possa haver à disposição testes que visam acima de tudo detectar se, eventualmente, há infecção pelo VIH».
Actualmente, não restam dúvidas de que «quanto mais cedo for detectada uma infecção deste género mais fácil se torna tratar os respectivos doentes», informa Rui Sarmento e Castro, acrescentando ainda que, «além disso, também é de salientar que, «em Portugal, o número de heterossexuais infectados é cada vez maior. Relativamente a este ponto, é imprescindível esclarecer que, normalmente, estas pessoas nem sequer sabem que estão infectadas pelo vírus». E finaliza:
«Como, na grande maioria das situações, a infecção é detectada tardiamente, o resultado final acaba extremamente devastador.»
O olhar dos doentes
O Dr. Luís Mendão, do Grupo de Apoio aos Toxicodependentes (GAT) começa por fazer um cenário pouco animador. «A epidemia em Portugal é grave, a prevalência é mais alta que na maioria dos restantes países europeus, a maioria dos doentes é diagnosticada tardiamente e ainda não temos uma visão fiável da incidência e de onde está a acontecer a transmissão. A esmagadora maioria das pessoas que vivem com VIH tem/é obrigada e deve ocultar o seu estatuto serológico para defender o emprego e a família. Apenas meia dúzia de pessoas em situação privilegiada vivem abertamente com o VIH em Portugal, não é por falta de coragem, mas porque temem ser discriminados».
Em relação a modificar os grandes desafios relativos à epidemia do VIH/SIDA e à diminuição da incidência, Luís Mendão não hesita na resposta:
«Programas de detecção precoce e referenciação eficazes, prevenção baseada em provas, avaliados e monitorizados, e implementação urgente dos três princípios básicos – um programa nacional acordado entre os diferentes intervenientes (decisores, investigadores, profissionais de saúde, privados, sociedade civil, pessoas que vivem com a infecção e as organizações da sociedade mais atingidas e vulneráveis), uma coordenação com mandato efectivo multisectorial capaz de integrar na sua estrutura operacional pessoas que vivem com VIH e capaz de contratualizar com a sociedade civil um sistema de monitorização e vigilância epidemiológica fiável, que nos permita conhecer a epidemiologia da infecção de modo a pôr em prática as respostas adequadas.»
Finalmente, e em jeito de conclusão, deixa uma mensagem de apelo aos vários grupos com intervenção nesta problemática:
«Ao público em geral: as pessoas com VIH não vos põem em risco; aos médicos: o tratamento da infecção pelo VIH exige uma actualização de conhecimentos permanente e a responsabilidade partilhada na relação médico/doente (uma relação para a vida no caso da infecção pelo VIH) é uma vantagem para todos; à classe política: é indispensável liderança política e compromissos claros mensuráveis e avaliáveis. Os custos actuais da infecção, quer em termos humanos, quer em termos de recursos, são muito altos e podem tornar-se incomportáveis se não forem dados meios e exigidos objectivos claros a quem coordena as políticas para o VIH e SIDA em Portugal; aos doentes: têm se ser parte da solução. Sem doentes informados, organizados, capazes de exigir o respeito dos seus direitos, não é possível mudar, de facto, a situação actual», conclui.