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Artigo de Saúde Pública®

Nº 86 / Novembro de 2009






18 Osteoporose causa 50 mil fracturas por ano
Entrevista com a Dr.ª Viviana Tavares, reumatologista do Hospital Garcia de Orta (HGO) e presidente da APOROS
A osteoporose é uma doença que torna os ossos mais finos e frágeis e que, por isso, facilita o aparecimento de fracturas. Fortalecê-los é a melhor prevenção para que anos mais tarde não surjam problemas, ou não fossem os mais velhos aqueles que mais são afectados.


A osteoporose é uma doença que leva a uma fragilidade do osso, que assim se parte mais facilmente. Aliás, à letra, o significado de osteoporose não deixa dúvidas: menos osso.
O osso perde firmeza e resistência, o que resulta na maioria das vezes em fracturas, o principal problema da osteoporose.

A Dr.ª Viviana Tavares, reumatologista do Hospital Garcia de Orta (HGO) e presidente da APOROS (Associação Nacional contra a Osteoporose), reconhece que «todos os sintomas da osteoporose resultam das fracturas e é importante reter que anualmente ocorrem mais de 50 mil fracturas relacionadas com a osteoporose».

Usualmente, são fracturas que ocorrem com traumatismos mínimos, ou seja, uma simples queda pode ser o suficiente para alguém que tem osteoporose fazer uma fractura.

A reumatologista explica que estas «são lesões que vão atingir as populações mais idosas, a partir dos 60 a 65 anos, sendo que algumas delas assumem consequências graves, nomeadamente as fracturas vertebrais e as fracturas da anca, que têm efeitos directos na qualidade e na quantidade de vida muito significativas».

Além dos idosos, a presidente da APOROS lembra que as mulheres são outro grupo de risco a partir da menopausa, já que dados indicam que uma em cada três mulheres depois da menopausa têm a probabilidade de sofrer uma fractura, durante o resto da vida.

«Se atendermos aos anos de vida que, em média, as mulheres têm depois da fase de menopausa, há que reconhecer que este é um grupo de risco a ter em conta. Nos indivíduos idosos, logicamente, esta incidência ainda aumenta mais, pois, consoante se vai avançando na idade, mais vai aumentando o risco de surgimento de uma fractura osteoporótica. Logo, se cada vez temos uma esperança de vida maior e a população está a envelhecer, este é, consequentemente, um problema que afecta um cada vez maior número de pessoas», revela.

Traçado o cenário, a prevenção é, pois, uma etapa decisiva e a presidente da APOROS considera que essa pode ocorrer em várias etapas da vida.

Realça que «o essencial é uma prevenção primária, numa altura em que está a ser adquirida a massa óssea e até que seja atingido um pico, o que ocorre por volta dos 35 anos de idade».

Portanto, continua, «o período da adolescência é crucial para a criação de massa óssea», revelando ainda que «um aumento de 10% na criação de massa óssea na altura da adolescência vai contribuir para uma redução de 50% no risco de fractura na idade avançada».

As medidas que devem ser tomadas têm que ver com uma alimentação adequada, rica em cálcio, vitamina D e outros componentes. Fundamentalmente, uma alimentação equilibrada, com a prática regular de exercício físico, sem hábitos que são nocivos para o osso e para a vida – como o tabagismo ou o alcoolismo.

Já em idades mais avançadas, a prevenção continua a ser essencial e os grupos de risco não devem negligenciar o problema:
«Aquando da menopausa, as mulheres devem falar com o seu médico, de modo a anteverem se têm risco de ter fractura, sendo que, se houver de facto um risco aumentado, devem fazer uma densitometria e, se for caso disso, começar desde logo a fazer terapêutica. O mesmo deverá acontecer com todos os indivíduos idosos. A partir dos 65 anos, se ainda não se fez, é essencial que todas as pessoas façam pelo menos uma medição da massa óssea», aconselha a reumatologista do HGO.


O papel da APOROS

A APOROS surgiu em 1994, no seguimento da campanha «Osteoporose: a ameaça oculta», realizada pela Sociedade Portuguesa de Doenças Ósseas Metabólicas, uma sociedade científica.

Contudo, terminada a campanha de dois anos, muito continuava por fazer e os responsáveis não tiveram dúvidas: o ideal seria continuar a passar para a população não só a informação necessária sobre a osteoporose – para perceberem a doença e o modo como deviam actuar perante ela –, mas também colocar nas mãos da população em geral a responsabilidade de se protegerem, assumindo hábitos de vida saudáveis para o osso.

«Nesse sentido», conta Viviana Tavares, presidente da APOROS, «foi criada esta associação, pela iniciativa da Sociedade de Doenças Ósseas Metabólicas e dos seus dirigentes, que à altura procuraram criar uma associação não médica que tivesse como objectivos informar e divulgar todas as informações adequadas sobre osteoporose e promover campanhas de sensibilização e mudanças de hábitos junto da população em geral».

Sensibilizar e informar continua a ser a principal missão da APOROS, que procura alertar as pessoas para a importância de terem hábitos de vida saudáveis. «Saudáveis para o osso e saudáveis para a vida, porque uma coisa é igual à outra», lembra a reumatologista.

A presidente desta associação adverte que, «embora a acção da APOROS não seja tão centrada no apoio directo ao doente, não deixamos de nos preocupar com os recursos que são mal gastos, com indivíduos que se encontram a fazer terapêutica sem qualquer indicação, enquanto doentes que deviam fazer terapêutica se encontram totalmente esquecidos. Portanto», assume, «ainda temos um longo caminho a percorrer e muito trabalho a fazer».


A ajuda da terapêutica

O conhecimento sobre a doença tem também avançado com o tempo e Viviana Tavares sublinha que, «no plano terapêutico, felizmente, há hoje várias soluções disponíveis, em contraponto com o que se registava até há alguns anos. Temos fármacos que actuam a vários níveis, ou diminuindo a reabsorção óssea ou aumentando a formação de osso. São fármacos, regra geral, bem tolerados, mas em que o principal problema está na adesão à terapêutica, uma vez que os doentes não sentem nada e não compreendem muito bem o porquê de fazer determinada medicação».

Assim, a médica reumatologista frisa que «é fundamental que os doentes que têm de facto necessidade de fazer terapêutica para reduzir o seu risco de fractura percebam que têm de seguir esse caminho».

Neste plano de intervenção, os desenvolvimentos ao nível biotecnológico são uma importante ajuda ao tratamento, «ainda para mais quando na área da osteoporose estão a ser desenvolvidas diversas soluções que são interessantes do ponto de vista científico e que podem trazer benefícios na redução da probabilidade de fractura», resume a reumatologista, acrescentando que «a solução que neste momento está mais avançada é o denosumab – o primeiro anticorpo monoclonal –, que demonstrou conseguir uma diminuição significativa do risco de fractura».

«Esta solução», acrescenta ainda, «tem também a vantagem de a sua toma ser feita apenas duas vezes por ano, o que, naturalmente, pode vir a trazer vantagens na melhoria da aderência ao tratamento».

No entanto, ressalva que estas são também soluções de custos elevados, «pelo que é necessário escolher bem a população que mais poderá beneficiar com esta intervenção terapêutica».

Em suma, termina, «é extremamente positivo o surgimento destas terapêuticas, que em última análise significam um conhecimento mais íntimo do modo como funciona o osso».


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